O Sporting Clube de Portugal disputa no próximo dia 18 de Maio, a Final da Taça de Portugal.
Em menos de um ano é a quarta final que disputamos e que queremos vencer.
Na Final da Supertaça 06/07 , há menos de um ano, vencemos o F.C. Porto e no campeonato, no confronto directo com o F.C. Porto, fomos melhores. Perdemos no Estádio do Dragão, em resultado de um livre inventado e vencemos em Alvalade 2-0. Nada temos a temer, somos o Sporting e devemos sempre jogar para vencer!
Mas a razão deste artigo prende-se com o que sucedeu há 12 anos. Disputava o Sporting Clube de Portugal, outra final, noutros tempos, frente a outro adversário.
Depois de um sono muito leve no chão do passeio, um pouco acima da 10-A, consegui, juntamente com alguns que hoje também pertencem à Centúria Leonina e que como eu pertenciam, à data, ao Núcleo Roma da Juventude Leonina, bilhetes para a final. Foi uma emoção!
Foi uma madrugada divertida (essa da espera pelos bilhetes) e ainda deu para dar uns toques com vários Sportinguistas no antigo campo de treinos… e de manhã, já tínhamos os bilhetes.
No dia 18 de Maio de 1996 com o meu irmão, com o meu primo, Luis Godinho e com vários amigos, designadamente, Gonçalo Falcão, João Paccetti, André Chedas, João Pedro Chedas, André Matos, Samu e tantos outros, à hora do almoço, saímos na estação de comboio da Cruz Quebrada para irmos ver o jogo. Levávamos cachecóis e bandeiras do Sporting e percorridos uns metros, estávamos… no meio das claques do slb.
O que se passou… em seguida, não me cabe a mim contar. Talvez outros, com maior distanciamento e maior isenção possam testemunhar o que sucedeu.
Em todo o caso, houve confrontos apesar de estarmos em significativa inferioridade numérica, houve ameaças e furtaram-nos um cachecol verde do Werder Bremen, que horas depois estava ao pescoço de um sujeito que viria a ser fotografado por um repórter do Expresso no momento em que o segundo very light - (digo e repetirei isto até à exaustão, porque recordarei este momento até ao fim da minha vida – quem esteve no Jamor nesse dia, pode recordar-se que antes do início do jogo, um very light foi disparado para a Bancada Norte, onde estavam as claques e muitos sócios e adeptos do Sporting, tendo ficado o referido very light a arder na copa de um eucalipto, por cima da Bancada Norte) - foi disparado da Bancada Sul em direcção à Bancada Norte.
Com o início do jogo e com o primeiro golo que sofremos, um very light foi disparado em direcção à Bancada Norte e a cerca de vinte metros à minha esquerda, estava um Sportinguista deitado no chão, com a camisola ainda a arder e o sangue manchava já a pedra daquela bancada do Estádio Nacional.
Não percebi logo se aquele Sportinguista tinha falecido, mas depois, percebi que sim, que um Sportinguista tinha morrido, que aquele Sportinguista que naquele dia tinha ido ver o seu Sporting, nunca mais iria estar com os seus, nunca mais iria ver o seu Sporting e tinha sido privado de tudo o que tinha porque alguém tinha disparado um very light.
Rui Mendes morria com a camisola do Sporting vestida.
Confesso que foi dos dias em que me senti mais triste na minha vida, que foi com enorme mágoa, com revolta e com um profundo sentido de injustiça que abandonei com os meus, aquele Estádio, naquele dia.
Ainda hoje lamento que as autoridades não tenham actuado em tempo, que o poder político que estava representado na tribuna não tenha actuado como creio que devia e não tenha suspendido, de imediato, o jogo. Afinal de contas, era uma vida humana que se tinha sido violentamente tirada, ali, na presença de milhares de pessoas… mas
“a bola continuou a rolar…”Foi uma vergonha e direi sempre que
FOI UMA VERGONHA.
Mas, a propósito dessa vergonha, enviaram-me hoje um excerto de um comentário ou de um texto, da autoria de Pedro Ferreira, pessoa que não conheço, mas que gostaria de citar, porque tem subjacente uma ideia nobre, uma ideia justa e uma ideia digna, que julgo merecer o aplauso de todos.
“Este comentário pode parecer um pouco fora do contexto, no entanto tem a ver com aquilo que eu considero um crime e que foi provado em sede própria, refiro-me ao caso very light na final da taça de portugal no ano de 1996. Um criminoso (hoje a monte) retirou a vida a um adepto do nosso clube que apenas desejava vivenciar a festa do futebol e vitória do seu clube do coração na disputa dum trofeu que viriamos a perder, facto irrelevante quando estão em causa outros valores maiores como é o da vida humana e o respeito por esta. Este trágico acidente ocorreu no dia 18 de Maio de 1996,doze anos depois voltamos a jogar uma nova final da taça frente a um adversário diferente precisamente no dia 18 de Maio. Seria de bom tom no caso de vitória do nosso Sporting dedicar esta vitória à familia de Rui Mendes (salvo erro era o nome do senhor) nunca o esquecendo a ele e a outros "ruis mendes" adeptos de qualquer equipa de futebol. Que os dirigentes do sporting o relembrem e o homenageiem, façamos com que ninguém se esqueça dele, só é preciso ir passando a palvara.Que o dia 18 de Maio de 2008 seja em tudo diferente do dia 18 de Maio de 1996. (O dia em que deixei de frequentar estádios de futebol e em que passei a dar mais valor à vida). Pedro Ferreira”Assim, e como diz Pedro Ferreira, caso o Sporting vença a referida Taça de Portugal – e acredito que vai vencer - deve dedicar esta conquista a Rui Mendes e à sua família, pois são actos como estes, genuínos e sentidos, que marcam a diferença e que são consonantes com aquilo que deve ser aquilo a que chamo:
Cultura Sporting.
Porque nada é mais importante que a Vida e porque para o Sporting, nada deve ser mais importante do que os Sportinguistas, continuo a lutar, em várias sedes, para que o dia 7 de Maio, passe a constar do calendário oficial do Sporting, como o Dia do Ultras, ou o Dia Ultras-Sporting, ou o Dia do Sportinguista, em homenagem aos Sportinguistas (Zé e Paulo) que faleceram em Alvalade, em 7 de Maio de 1995.
Um dia conseguiremos.
O Sporting Vive, a Lenda continua.